A democratização do mercado de opinião

A perda de eficiência cada vez maior das denúncias e dos factoides jornalísticos é sinal desses novos tempos. Em parte, devido ao rebate das redes sociais. Em parte, pelos exageros das denúncias não fundamentadas.

[#LuisNassif] – A coluna de sexta-feira (24) especulava sobre a possibilidade do terceiro turno – a tentativa de ganhar no tapetão as eleições. Foi escrita antes da divulgação da capa da revista Veja, com a informação de que o doleiro Alberto Yousseff havia acusado Dilma Rousseff e Lula de participarem dos esquemas da Petrobras.

Na reportagem, limitava-se a colocar uma suposta pergunta do delegado ou procurador (sobre quem mais sabia do esquema), uma suposta resposta do doleiro (que Dilma e Lula sabiam). Só: uma frase apenas. Na sequência, a revista informa que o delator não apresentou nenhuma prova e nem lhe foi exigida. No mesmo dia, em entrevista ao insuspeito O Globo, o advogado do doleiro garantiu não ter havido o diálogo.

É a enésima tentativa de grupos de mídia de tentar influir em eleições através de notícias falsas ou deturpadas. Em toda eleição, sempre há um festival de denúncias que surgem, explodem e desaparecem como se nunca tivessem ocorrido.

A maioria absoluta desses factoides desaparece no tempo, sem que nada ocorra com os divulgadores de notícias falsas.

Essas manipulações trazem à tona a discussão sobre o aprofundamento da democracia.

Como reza a Constituição, todo poder emana do povo. As discussões, formação de opinião, direito à informação se dá no chamado mercado de opinião. Em muitos aspectos, trata-se de um mercado similar a outros mercados. Quando existe competição, o consumidor é beneficiado; quando não existe concorrência, impõe-se ao consumidor qualquer produto por qualquer preço. No caso da informação, apenas a parte da notícia que interessa ao emissor.

Desde o aparecimento de tecnologias de transmissão, especialmente após o advento da TV aberta, em todo mundo democrático os grupos de mídia tornaram-se os personagens mais influentes do mercado de opinião, mais do que as religiões, os sindicatos e os próprios partidos políticos.

Cada salto tecnológico – telégrafo sem fio, telefonia, radiodifusão, televisão – acabava enquadrado em monopólios públicos, entregues aos grupos com maior influência política.

Para amenizar o extraordinário poder das emissoras, a concessão do espaço público para empresas de mídia veio acompanhada da exigências de se respeitar a pluralidade cultural, religiosa, política, de não se alinhar com candidatos ou partidos políticos.

Na prática, não ocorreu. Não apenas no Brasil, mas em outras democracias de mercado ocorreram abusos e interferências indevidas de grupos de mídia, que acabaram se tornando o principal ator político nas democracias.

O advento da Internet pela primeira vez trouxe a competição ao mercado de opinião. Não havia mais as restrições à entrada de novos players – como no rádio e na TV. Além disso, todos os atores sociais – de grupos de mídia a cidadãos individuais – passaram a atuar no mercado de opinião dentro da mesma plataforma tecnológica.

A perda de eficiência cada vez maior das denúncias e dos factoides jornalísticos é sinal desses novos tempos. Em parte, devido ao rebate das redes sociais. Em parte, pelos exageros das denúncias não fundamentadas.

Um dos desafios do próximo governo será atuar com ferramentas de mercado, aplicando regras de direito econômico e de aprofundamento da democracia, definindo limites à concentração da propriedade do setor.

Luis Nassif, na Coluna Econômica / Diap

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